Hoje me permito estar… borocoxô…

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Depois de quase duas semanas de chuva e céu encoberto, o sol resolveu aparecer. Primeiro, tímido, como quem não tinha certeza se era mesmo hora de voltar. Aos poucos, foi tomando conta do céu. E, como costuma acontecer, parece que o mundo também muda de humor quando a claridade chega.

Eu, não…e preciso confessar: sinto-me melancólica.

E há uma angústia aqui dentro que, agora, está merecendo atenção.

Não sei se me cansei de me lapidar como uma pessoa em transformação, sempre buscando isso ou aquilo. Aprender. Melhorar. Mudar. Descobrir novos caminhos. Tornar-me uma versão melhor de mim mesma.

Fato é que estou triste.

Levantei-me animada para seguir com os meus estudos. Fiz o que tinha que fazer pela manhã. Cumpri a rotina. Mas agora, neste exato momento, estou com o peito apertado.

E talvez eu precise simplesmente reconhecer isso.

Assisti a um podcast de uma pessoa incrível. Admirável, capaz, batalhadora. Todos os adjetivos positivos parecem caber nela. Escutei sua história com admiração genuína.

E me comparei.

Podem pensar que se trata de inveja, mas, humildemente, reconheço que não.

Porque sei que jamais teria a capacidade dela.

E prefiro não interpretar esse sentimento como uma questão de não merecimento. O que estou tentando reconhecer é outra coisa.

Trata-se, talvez, de ser realista.

De reconhecer que a vida pode ser vista como um funil: para alguns, ele se abre; para outros, ele vai se estreitando.

E perceber isso não precisa ser uma sentença.

É doloroso reconhecer isso. Mas compreender que essa realidade existe me faz refletir.

Depois de algum tempo comigo mesma, curtindo a tristeza e a frustração — sem tentar imediatamente transformá-las em aprendizado, gratidão ou alguma dessas frases prontas que parecem nos obrigar a encontrar um lado positivo para tudo — começo, aos poucos, a enxergar outra coisa.

Talvez eu possa agradecer à vida justamente pelo que ela está me mostrando.

Já não tenho infinitas possibilidades.

O campo se tornou menor. Mais estreito.

E, curiosamente, talvez isso não seja necessariamente ruim.

Porque, quando o campo diminui, talvez também diminua a dispersão.

Já não preciso caber em todos os lugares.

Talvez eu tenha apenas que encontrar aquele em que ainda possa me encaixar.

E há uma diferença importante nisso.

Não é sobre capacidade.

É sobre gana.

Sobre vontade.

Sobre energia vital.

E essa energia não é distribuída igualmente entre nós.

Cada pessoa recebe, constrói, perde, recupera e movimenta a sua de uma maneira muito particular. Há quem tenha uma força de impulso impressionante. Há quem atravesse a vida com uma espécie de motor interno que parece nunca desligar. E há quem precise, em determinados momentos, parar, respirar, recolher-se e simplesmente admitir: hoje, não tenho essa energia toda.

Talvez eu esteja exatamente aí.

E tudo bem.

Aos 54 anos, começo a entender que maturidade não significa necessariamente ter se encontrado.

Às vezes, significa ter coragem de admitir que ainda estamos procurando.

Que ainda podemos olhar para alguém e admirar sua trajetória sem desejar ser aquela pessoa.

Que podemos reconhecer nossas limitações sem transformar isso em uma condenação.

Que podemos aceitar que algumas portas já não se abrirão — e, ainda assim, continuar procurando aquelas que podem se abrir.

Peço que não me julguem.

Mesmo quem já viveu 54 anos pode ainda estar tentando descobrir onde colocar sua energia, sua vontade, sua experiência e, sobretudo, sua gana de viver.

Talvez eu ainda esteja pedindo à inteligência infinita do meu subconsciente que me mostre o meu verdadeiro lugar nesta vida.

E talvez essa procura, por si só, já seja uma forma de movimento.

Hoje, portanto, eu me permito estar borocoxô.

Sem culpa.

Sem pressa de melhorar.

Sem a obrigação de transformar tristeza em produtividade.

Hoje, eu só quero ficar um pouco comigo.

Por enquanto, deixo que o dia seja luminoso lá fora.

Ayumi

Minhas raízes se nutrem da tradição e dos valores que herdei como nissei, mas o meu “eu” de hoje se projeta de forma livre e global rumo a um mundo sem fronteiras. São 54 anos de histórias, mas sinto que o capítulo mais bonito começou a ser escrito agora. Há pouco tempo, senti um chamado sutil, mas persistente: a urgência de viver com mais essência, verdade e presença. Este blog é o espelho desse despertar e desse olhar para dentro. Compartilho aqui a minha busca por equalização e a bagagem de uma mulher madura que descobriu no autoconhecimento uma jornada sem fim. Aqui, falo sobre maturidade, propósito e a coragem de recalcular a rota quando o coração pede. Espero que minhas vivências tragam insights para o seu próprio despertar. Sente-se, pegue um chá (ou um café) e fique à vontade. Este espaço também é seu.

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