Ontem li uma notícia que me fez parar.
“O ano em que setembro virou janeiro em São Paulo.”
O título é da Climatempo e não é apenas uma licença poética. Até o dia 22 de setembro, São Paulo já havia acumulado 304,6 milímetros de chuva — o maior volume registrado em um mês de setembro nos 83 anos de medições do INMET no Mirante de Santana. A quantidade também já havia ultrapassado a média histórica de janeiro, justamente o mês mais chuvoso do ano na cidade.
Setembro, portanto, resolveu se comportar como janeiro.
E fiquei pensando em como gostamos de acreditar que o tempo sabe exatamente o que está fazendo.
Setembro deveria ser setembro.
Janeiro, janeiro.
Inverno, inverno.
Primavera, primavera.
Há uma certa tranquilidade em saber que cada coisa tem sua hora.
Talvez seja por isso que nos incomode tanto quando alguma coisa acontece fora de época.
Os gregos antigos tinham mais de uma maneira de pensar o tempo.
Havia o Chronos, associado ao tempo que passa, que pode ser contado e organizado em dias, meses, anos. É o tempo do calendário, do relógio, da sucessão das coisas. O tempo que nos diz quantos anos temos, em que mês estamos e quanto falta para determinada data.
É o tempo que coloca a vida em ordem.
Ou, pelo menos, tenta.
Chronos nos ensina que existe uma sequência: primeiro isso, depois aquilo. Uma idade para começar, outra para terminar. Um momento adequado para determinadas escolhas. Um calendário que parece dizer, silenciosamente, quando alguma coisa deveria acontecer.
E talvez tenhamos aprendido a aplicar esse mesmo calendário à própria vida.
Aos vinte, determinadas experiências.
Aos trinta, outras.
Aos quarenta, algumas mudanças já deveriam estar acontecendo.
Aos cinquenta, espera-se que saibamos quem somos, onde estamos e, de preferência, o que pretendemos fazer daqui para a frente.
Como se houvesse uma espécie de meteorologia da existência.
Como se cada idade tivesse sua temperatura, sua estação e sua previsão.
Mas a vida, assim como o clima de São Paulo neste setembro, nem sempre respeita a previsão.
Há pessoas que encontram o amor depois dos cinquenta.
Há quem mude de profissão aos sessenta.
Há quem descubra uma vocação quando já imaginava ter encerrado essa possibilidade.
Há quem finalmente diga não quando passou a vida inteira dizendo sim.
Há desejos que chegam atrasados.
Outros, talvez, simplesmente chegam quando estamos preparadas para reconhecê-los.
E há coisas que só conseguimos compreender depois de já termos vivido bastante.
A maturidade talvez tenha menos a ver com saber exatamente o que fazer e mais com perceber que não precisamos obedecer o calendário que alguém escreveu para nós.
Porque existe uma diferença entre envelhecer no tempo e viver o próprio tempo.
O primeiro acontece de qualquer maneira.
O segundo talvez seja uma escolha.
É aqui que gosto de lembrar de outro conceito grego: Kairós.
Se Chronos é o tempo que se mede, Kairós é o tempo oportuno — o momento que não se define pela quantidade de minutos ou anos, mas pela qualidade daquele instante. É quando alguma coisa encontra seu momento.
Kairós não pergunta quantos anos temos.
Talvez pergunte apenas:
é agora?
E talvez essa seja uma pergunta muito mais interessante na maturidade.
Não: “Ainda dá tempo?”
Mas:
“Este é o meu tempo?”
Porque talvez não exista uma idade correta para começar alguma coisa.
Talvez exista apenas o momento em que conseguimos olhar para aquilo que desejamos e reconhecer que chegou a hora.
Nem sempre será janeiro.
Às vezes será setembro.
Às vezes, um mês qualquer que não estava previsto.
Uma estação que chegou antes.
Ou depois.
Uma chuva fora de época que, apesar de contrariar o calendário, era exatamente a chuva que precisava cair.
Talvez a maturidade seja também isso: deixar de medir a vida apenas pelo Chronos e começar a prestar atenção ao Kairós.
Ao tempo vivido.
Ao tempo sentido.
Ao momento em que alguma coisa dentro de nós finalmente amadurece — ainda que o calendário diga que deveria ter acontecido antes.
São Paulo pode ter transformado setembro em janeiro.
E nós também podemos, vez ou outra, mudar de estação.
Sem pedir autorização ao calendário.
Afinal, quem disse que a vida precisa respeitar o calendário?
