Recomeçar depois dos 50: ainda há muito por viver

  • Autor do post:
  • Categoria do post:Posts
  • Comentários do post:0 comentário


“A vida é uma viagem que a gente embarca num trem. Uma viagem que a gente ignora o destino.”

Foi assim que a psicanalista Cléo Lichtenstein Luz descreveu a vida em uma entrevista concedida ao podcast PodPlas, em dezembro de 2023. Aos 98 anos naquela ocasião, ela falava sobre a existência como quem já havia percorrido muitas estações — sem, por isso, acreditar que conhecia o destino final.

Na sua imagem, o trem segue viagem sem que saibamos exatamente o que encontraremos pelo caminho. Pessoas sobem, pessoas descem. Algumas permanecem conosco por muito tempo; outras ficam apenas por algumas estações. Há o que será bom e o que será ruim, aquilo que aprenderemos, aquilo que sofreremos e aquilo que nos surpreenderá.

E há uma coisa sobre a qual não temos controle: o percurso.

Fiquei pensando nessa imagem.

Talvez porque, depois dos 50, começamos a perceber que já atravessamos muitas estações. Algumas escolhemos. Outras simplesmente aconteceram. Houve chegadas que desejamos e partidas que não queríamos. Pessoas que entraram em nossas vidas para permanecer por décadas e outras que desceram do trem antes que estivéssemos prontas para nos despedir.

Também nós já descemos de alguns trens.

Deixamos para trás profissões, relacionamentos, cidades, sonhos, certezas. Algumas vezes por escolha. Outras, porque a vida nos obrigou a mudar de direção.

E então chega um momento em que olhamos pela janela e nos perguntamos:

E agora?

Durante muito tempo, fomos ensinadas a imaginar que a vida adulta obedecia a uma espécie de roteiro. Havia uma idade para estudar, outra para trabalhar, casar, criar filhos, construir uma carreira. E depois dos 50, talvez viesse a fase de diminuir o passo, cuidar dos netos, observar a vida acontecer.

Mas talvez esse roteiro esteja ficando para trás.

Hoje, mulheres de 50, 60, 70 anos e além continuam trabalhando, estudando, criando, viajando, empreendendo, fazendo amizades, apaixonando-se, mudando de profissão e descobrindo interesses que não tiveram oportunidade de experimentar antes.

Não porque exista uma obrigação de permanecer jovem.

Mas porque envelhecer não significa necessariamente deixar de desejar.

E talvez essa seja uma das maiores mudanças na maneira como podemos olhar para a maturidade.

Depois dos 50, não precisamos saber exatamente para onde estamos indo para continuar a viagem.

Podemos não ter um plano de cinco anos.

Podemos não saber qual será a próxima estação.

Podemos até estar cansadas, inseguras, atravessando um período de dúvidas ou simplesmente tentando entender quem somos agora.

Ainda assim, podemos seguir.

Recomeçar não precisa ser uma grande virada.

Pode ser um gesto pequeno.

Voltar a estudar.

Retomar um projeto.

Aceitar um convite.

Aprender alguma coisa nova.

Fazer uma viagem.

Mudar uma escolha.

Dizer não.

Dizer sim.

Ou simplesmente permitir que uma parte de nós, que ficou adormecida durante tantos anos, volte a pedir passagem.

Talvez seja isso que a maturidade nos ensine: que recomeçar não significa necessariamente começar tudo de novo.

Passa a significar continuar a viagem depois de uma mudança de estação.

Algumas paisagens ficam para trás. Algumas pessoas descem do trem. Outras entram. Nós mesmas mudamos ao longo do caminho.

E não precisamos conhecer o destino para continuar.

Talvez baste olhar pela janela e perceber que ainda existe paisagem.

Que ainda existe curiosidade.

Que ainda existe mundo.

Que ainda existe vida.

Aos 50, aos 60, aos 70 — ou aos 100.

Porque talvez a pergunta não seja mais:

“Será que ainda há muito por viver?”

Talvez seja apenas:

“Qual será a minha próxima estação?”

Ayumi

Minhas raízes se nutrem da tradição e dos valores que herdei como nissei, mas o meu “eu” de hoje se projeta de forma livre e global rumo a um mundo sem fronteiras. São 54 anos de histórias, mas sinto que o capítulo mais bonito começou a ser escrito agora. Há pouco tempo, senti um chamado sutil, mas persistente: a urgência de viver com mais essência, verdade e presença. Este blog é o espelho desse despertar e desse olhar para dentro. Compartilho aqui a minha busca por equalização e a bagagem de uma mulher madura que descobriu no autoconhecimento uma jornada sem fim. Aqui, falo sobre maturidade, propósito e a coragem de recalcular a rota quando o coração pede. Espero que minhas vivências tragam insights para o seu próprio despertar. Sente-se, pegue um chá (ou um café) e fique à vontade. Este espaço também é seu.

Deixe um comentário