Durante muito tempo, pensei que deveria ter sido mais crítica, mais atenta aos movimentos da política e da economia mundial. A verdade, porém, é que só passei a olhar para esses assuntos com maior interesse depois dos 40 anos.
Talvez porque, antes disso, a vida tivesse pressa demais.
Naquela época, eu acompanhava as notícias, observava os acontecimentos, formulava minhas pequenas conclusões ao longo do dia. Eram pensamentos que surgiam entre uma obrigação e outra, entre o trabalho, a casa, os compromissos, as urgências cotidianas. Reflexões que, embora importantes naquele instante, acabavam se dissolvendo na própria velocidade da vida.
Hoje, com mais tempo — e talvez com uma disposição diferente para escutar o mundo — percebo que posso me deter um pouco mais sobre aquilo que me inquieta. Posso voltar a uma ideia, examiná-la por outros ângulos, ouvir pessoas que admiro e, sobretudo, tentar lapidar aquilo que penso.
Foi assim que uma reflexão trazida por Átila Iamarino, em um dos episódios de seu podcast, permaneceu comigo.
Falava-se sobre o NPC — non-playable character, expressão originária dos jogos eletrônicos para designar um personagem que não é conduzido pelo jogador e que, portanto, não ocupa o lugar de protagonista. A expressão passou a ser usada também para descrever pessoas que, de alguma maneira, não tomam iniciativa, não conduzem suas próprias escolhas ou parecem não desenvolver um pensamento próprio.
O que me perturbou foi saber que pessoas detentoras de grande poder econômico e tecnológico utilizam esse termo para se referir a outras pessoas.
Há algo de profundamente inquietante em alguém se conceder o direito de olhar para outro ser humano e classificá-lo como personagem secundário. Como se houvesse, de um lado, aqueles que conduzem a narrativa e, do outro, aqueles que simplesmente existem dentro dela.
Achei horrível.
Mas, depois da indignação inicial, aconteceu algo que não esperava: a pergunta deixou de ser sobre essas pessoas e passou a ser sobre mim.
E eu? Estou sendo protagonista da minha própria vida?
Essa pergunta me pareceu ainda mais importante porque chegou em um momento da vida em que já não sou tão jovem, mas também não me sinto velha. Um lugar curioso, esse da maturidade. Estamos suficientemente distantes da juventude para reconhecer suas ilusões, mas ainda temos diante de nós um horizonte imenso de possibilidades.
Talvez seja justamente aí que o protagonismo adquira outro significado.
Quando somos jovens, muitas vezes imaginamos que ser protagonista significa conquistar, avançar, vencer, ocupar espaços, fazer acontecer. Há uma certa urgência em provar quem somos.
Com o passar dos anos, entretanto, talvez o protagonismo se torne menos ruidoso.
Ele deixa de ser uma questão de chegar primeiro e passa a ser uma questão de saber para onde estamos indo — e, principalmente, se ainda queremos ir para lá.
A maturidade nos dá uma perspectiva que a juventude não poderia oferecer: a consciência de que nem todas as escolhas precisam ser mantidas apenas porque foram feitas um dia.
Podemos mudar.
Podemos desistir de uma ambição que já não faz sentido.
Podemos abandonar uma relação que nos diminui.
Podemos descobrir que determinada crença não é nossa, embora tenhamos passado décadas defendendo-a.
Podemos perceber que passamos boa parte da vida tentando corresponder às expectativas de pessoas que já nem estão tão presentes em nossa história.
E podemos, finalmente, perguntar:
O que eu quero?
Não o que esperam de mim.
Não o que seria mais conveniente.
Não o que fica bem aos olhos dos outros.
Não o que aprendi que uma mulher deveria querer.
O que eu quero?
Talvez essa seja uma das perguntas mais difíceis da maturidade.
Porque muitas mulheres chegam a essa fase da vida tendo sido excelentes protagonistas na vida de todo mundo.
Foram protagonistas na criação dos filhos, na construção da família, na carreira, no cuidado dos pais, no apoio ao companheiro, na administração da casa, na resolução de problemas. Aprenderam a antecipar necessidades, organizar a vida alheia, cuidar de todos.
E, algumas vezes, fizeram tudo isso tão bem que esqueceram de perguntar quem estava cuidando delas.
Não se trata de negar a beleza ou a importância desses papéis. Tampouco de transformar a maturidade em uma espécie de rebelião tardia contra tudo o que vivemos.
Talvez seja algo mais delicado.
É olhar para a própria história com honestidade e reconhecer: eu também estive aqui.
Eu também tive desejos.
Eu também tive sonhos.
Eu também tinha opiniões antes de aprender a silenciá-las.
Eu também poderia ter escolhido outras coisas.
E talvez ainda possa.
É nesse ponto que maturidade e protagonismo se encontram de maneira particularmente bonita.
Ser protagonista, nessa fase da vida, não significa controlar tudo. Aliás, talvez a maturidade nos ensine justamente o contrário: há coisas que nunca estiveram sob nosso controle.
Não escolhemos o tempo que passou.
Não podemos refazer determinadas decisões.
Não conseguimos impedir todas as perdas.
Não temos domínio sobre o que os outros pensam, fazem ou sentem.
Não podemos reescrever alguns capítulos.
Mas podemos decidir como lemos a nossa própria história.
E isso muda tudo.
Podemos deixar de olhar para o passado apenas com arrependimento e começar a enxergá-lo também como matéria-prima para a consciência.
Podemos reconhecer erros sem transformar a vida inteira em um tribunal.
Podemos compreender que fizemos determinadas escolhas com os recursos emocionais e intelectuais que tínhamos naquele momento.
E, a partir daí, escolher diferente.
Talvez protagonismo seja menos sobre escrever uma história perfeita e mais sobre assumir a autoria possível da história que ainda temos pela frente.
Isso também exige pensamento próprio.
E talvez essa seja uma das maiores tarefas intelectuais da maturidade.
Em um mundo em que somos constantemente bombardeados por opiniões, certezas, tendências, discursos, algoritmos e pessoas que parecem saber exatamente o que devemos pensar, ter uma opinião própria tornou-se um exercício de atenção.
Pensar por conta própria dá trabalho.
É preciso desconfiar das certezas fáceis. Ouvir opiniões diferentes. Admitir que podemos estar errados. Ler. Estudar. Fazer perguntas. Mudar de ideia.
E, sobretudo, suportar o desconforto de não ter uma resposta imediata.
Talvez seja por isso que aquela conversa sobre os NPCs tenha me atingido tanto.
Não porque eu queira ser protagonista o tempo inteiro, mas porque percebi que existe uma diferença fundamental entre não estar no centro de tudo e não ser autora de nada.
Podemos abrir mão do centro sem abrir mão da nossa consciência.
Podemos cuidar de outras pessoas sem desaparecer de nós mesmas.
Podemos aceitar que a vida impõe limites sem entregar a ela todas as nossas escolhas.
Podemos envelhecer sem nos tornarmos espectadoras da nossa própria existência.
E talvez a maturidade seja exatamente esse momento em que começamos a compreender que protagonismo não é fazer tudo acontecer.
É escolher, dentro do possível, como queremos estar no que acontece.
Talvez ninguém seja protagonista o tempo inteiro. Há períodos em que apenas sobrevivemos. Há momentos em que precisamos ser coadjuvantes na história de alguém que amamos. Há fases em que o cansaço, a dor ou as circunstâncias nos fazem simplesmente seguir.
E tudo bem.
Mas existe uma diferença entre atravessar uma fase em que não conseguimos conduzir a própria vida e transformar essa ausência de escolha em uma maneira permanente de existir.
Por isso, talvez a pergunta que a maturidade nos oferece não seja apenas “O que fiz da minha vida?”
Talvez seja:
“O que ainda quero fazer dela?”
E há uma beleza inesperada nessa pergunta.
Porque ela não olha para o tempo que passou apenas como perda. Olha para o tempo que permanece como possibilidade.
Depois dos 40, 50, 60 anos, não começamos uma vida do zero. Começamos de um lugar muito mais interessante: conhecemos nossas forças, nossas fragilidades, nossas contradições, nossas perdas e algumas de nossas ilusões.
Temos cicatrizes.
Temos histórias.
Temos repertório.
E, se tivermos sorte, temos também a coragem de abandonar algumas versões de nós mesmas que já não nos servem.
Talvez seja isso amadurecer.
Não tornar-se definitivamente quem somos, mas adquirir liberdade suficiente para perguntar, de tempos em tempos:
“Esta ainda sou eu?”
E, se a resposta for não, ter a coragem de escrever algumas linhas diferentes.
Afinal, talvez o verdadeiro protagonismo não esteja em controlar o roteiro.
Este, quase nunca controlamos.
Talvez esteja em não permitir que outra pessoa escreva por nós o final dos capítulos que ainda não vivemos.
