Olhos emprestados

Gostaria de compartilhar uma experiência marcante no metrô. Uma estação antes da minha parada, uma mulher cega, ao perder o aviso sonoro que anunciava o nome da estação, perguntou em voz alta, em tom de desespero, onde estávamos. Não havia muita gente dentro do vagão, mas apenas um rapaz foi capaz de lhe dar a resposta. Ela agradeceu e, com a sua bengala, se dirigiu à porta. Um agente da estação a aguardava na plataforma. Fiquei admirando a grandeza daquela troca, porque, notei depois que o rapaz também era cego.

Quando o trem parou na minha estação, percebi que o rapaz também desceria, mas não havia ninguém esperando por ele. Antes que as portas se fechassem, perguntei se ele aceitava ajuda. Com um aceno de cabeça e um sorriso, ele agradeceu e segurou meu braço. Caminhando lado a lado em direção à escada rolante, percebi o real valor do piso tátil. Sentir a segurança que aquela faixa azul em relevo transmitia mudou a minha percepção sobre acessibilidade.

Conversamos até a catraca, onde chamei um agente para acompanhá-lo até a saída. Trocamos nomes — descobri que ele se chamava Alexander — e nos despedimos. No caminho para casa, minha mente não sossegou. Lembrei da minha leve hesitação quando ele segurou meu braço e me perguntei se ele havia sentido minha insegurança. Ser os olhos de alguém, mesmo que por instantes, carrega uma responsabilidade avassaladora. Eu confiaria em um estranho se estivesse no lugar dele? Aquela vivência única e irrepetível me mostrou que a empatia não é um conceito abstrato, mas uma habilidade que pulsa quando escolhemos enxergar o outro. A vida é extremamente pedagógica e nos ensina o tempo todo.